¡MIRA! Artes visuais contemporâneas dos povos indígenas – o contexto da obra, do artista e a ocasião.

Por: Jaider Esbell – Artista Macuxi.

Jaider Formulario 01 - KANAIMÉ

Kanaimé. Jaider Esbell, acrílica sobre tela. 2011.

Em geral, somos levados a entender a arte como um conjunto de informações e emoções intrínsecas ao objeto contemplado, traduzidos em múltiplos valores. Tais objetos elevam-se à condição de obra de arte quando são percebidos, assimilados e digeridos, no sentido mais amplo do termo, por um grupo de pessoas pré-dispostas a aceitar a sugestão de um sistema que envolve profissionais, contexto político-social e mercado. Nesse sentido, a arte pode parecer só mais um produto, fruto da criação humana, na busca de preencher espaços criados pela relação de oferta e consumo, na busca incessante por novidades ou simplesmente pela obsessão de criar algo “novo e importante” no contexto da “evolução humana”.
Isso é uma questão; uma perspectiva do contexto. Agora, para além de buscar re-significar o termo-referência arte, convém aceitar que, ao reunir uma coleção diversificada de obras, ¡Mira! nos envolve num desafio complexo e instigante. Instigante porque a arte indígena contemporânea está inteiramente relacionada com a sensibilidade do artista em produzir uma ponte de comunicação para o inatingível, em nível da imaterialidade referenciada pelos espíritos dos ancestrais. Perceber o que não se conhece, sentir esse espírito no áudio, no visual ou em outros meios é um dos desafios mais instigantes. Outro desafio vem do lado de fora da galeria, do lado de fora do contexto, das ordens não naturais das coisas, do sistema oposto ao propósito da vida e da magia, da negação a coexistência. Exatamente, falo de 25 povos originários da América do Sul, neste contexto representado por 54 artistas e suas obras-trajetórias em contraponto com o senso comum de que existir pressupõe seguir uma única via ditada por outros, a hegemonia e o unilateralismo.
Passear no jardim da criatividade, nos recantos sagrados ainda mantidos em busca de arte indígena, não é exatamente um exercício de colecionador na busca de eleger tão somente as formas e cores que mais lhe enchem os olhos. Não, não é! O que a Coleção ¡MIRA! reúne são pontos de interconexão, de uma ligação fortemente estabelecida entre os homens e os seres fantásticos que habitam estas terras desde que não se tem memória. Nesse exato ponto, se percebe o propósito maior da arte e do artista indígena como comunicador entre dois mundos. Sem medo do exagero, é fácil acreditar na atuação sobrenatural dos guias na condução dos curadores. Como selecionar aleatoriamente o que não é aleatório, casual ou fruto da individualidade?
O ponto comum que as obras de arte reunidas na ¡MIRA! têm são: o valor incalculável do saber ancestral, a energia espiritual, a força da resistência e a magia pela busca de perpetuação em um tempo visivelmente predisposto a ignorá-los com a ideia da homogeneização inevitável. Então, quando se reúnem obras de artes de diferentes povos originários, imagina-se, em uma outra escala, quão articulada está a teia da ancestralidade e nós, artistas e articuladores, somos a parte visível, palpável, e cabe a nós costurar com vigor essa teia para mirar a perpetuação dos saberes.
Para começar a saborear o que de melhor os artistas indígenas têm para oferecer, é preciso, antes de tudo, entender que cada traço, ponto ou cor foi concebido em um estado de energia único. Que essa energia tem origem em um passado remoto, de onde tudo se origina, estaciona momentaneamente nos dias atuais, guiando os sentidos do artista que segue mirando fixamente para o futuro; o futuro comum que todos esperam. Essa é uma via de entendimento, mas, nessa trajetória, muitos detalhes estão diluídos e para esses detalhes estarem ao nível da percepção humana, cabe a nós espectadores o exercício doloroso da espera e da busca. Só assim, com o tempo próprio, o apropriado será sentido na plenitude.

Homenagem a Anastacia Candre

Vídeo

É com grande pesar que recebemos a notícia do falecimento de Anastacia Candre, líder, artista, poeta e pesquisadora ocaina-uitoto. No vídeo acima Anastacia nos fala sobre sua obra e vida, sua palavra de abundância. Todos da equipe MIRA e demais artistas prestamos nossa homenagem.

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La Palabra es Abundancia, tinta sobre llanchama, Anastacia Candre, 2013.

MIRA! na revista Brasil Cultural, da Embaixada do Brasil em Lima.

 

 

Brasil Cultural, revista publicada pela Embaixada do Brasil no Peru,  traz em sua nova edição matérias especiais sobre a Amazônia, enfocando a atual e rica produção cultural que vem dessa região na gastronomia, produção literária, artes visuais e cinema. A Exposição MIRA! é tema da matéria sobre artes visuais.

http://issuu.com/miraartesvisuaisdospovosindigenas/docs/aprobacion_revista_brasil_n13_-_pag

 

APROBACION Revista Brasil N13 - PAGS1-52 (1)ImagemImagem

 

Miração

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(Peça de teatro escrita por Rafael Fares, inspirada na Exposição MIRA!)

Miração

 

(A dramaturgia do texto Miração é composta por uma tríade: Paisagem, Pensamento e Mirante. Estas figuras-lugares serão diferenciadas pelas fontes: itálica, regular e negrito. No decorrer da narrativa, as nomeações destas figuras-lugares vão desaparecendo)

 

I – O CIPÓ 

 

Paisagem ( diz da varanda, no microfone )

 

Estamos no ocaso. É um campo de futebol com as traves enferrujadas, uma pequena plantação de bananeiras, um resto da mata atlântica e uma casa ao fundo. Na cerca que  delimita o campo, há uma caneta. Sons da cidade e da memória. Paisagem, Pensamento e Mirante estão sentados em roda. A paisagem serve o chá.

Pensamento

( Rindo Nervoso )

Eu estava ali, pois tinha decidido tomar o chá. Eu já havia tomado outras vezes ayahuasca e sabia de suas forças. Naquela noite, tomei a bebida com orientação de Paulo. Alguns amigos disseram que ele era uma pessoa boa e não tinha uma doutrina a ser seguida.

( Pensamento caminha pelo espaço )

 

Paisagem ( do alto, como se descrevesse alguém da platéia )

 

Na casa, próxima do campo, um homem despojado, cabelos longos e brancos, fruto da geração dos anos setenta, com a simplicidade de um sertanejo.

 

FADE IN AUDIO MÚSICA `INTRO`

Paisagem ( informando )

Sua comunidade tem influências dos povos amazônicos, mas sua condução é bem livre. A música é uma constante em toda a sessão. Quem toma o chá não precisa seguir nenhum roteiro.

 

Mirante  ( sentada no chão )

 

Sou só eu e meu corpo nesta roda. O sábio nos traz o chá.  Ele serve, eu bebo. Ele fala, eu escuto. (Silêncio) Sinto reações em meu corpo!

Pensamento ( se afasta calmamente )

Eu já sabia que estava vindo o efeito, então, eu decidi me distanciar do grupo. Passei por uma cerca de arame e dependurei minha caneta na cerca.

(um barbante preso no teto segura a caneta no espaço)

Paisagem

 

O mirante anda pelo velho campo, brinca com seu corpo numa dança estranha, joga com o equilíbrio, entorta, é o início da digestão do mariri chacrona. Ele ri um pouco nervoso. Os sons da paisagem começam a se distorcer. Ele se espreguiça aproveitando a trave. Depois senta no centro do gol, languido.

 

Pensamento

Quantos não foram os jogos jogados neste campo. Quantas não foram as pessoas que aqui estiveram e por vontade de estarem juntas, dentro das regras das quatro linhas, guerrearam e se divertiram. Só nesse campo de futebol são várias as histórias.

 

Mirante ( se lança para o chão. )

 

Sinto algo em minhas veias. Eu já começo a ficar sob o efeitiço. É a experiência a matéria de tudo. 

 

Paisagem

 

Você já sentiu que ia perder-se em seu movimento?

 

Pensamento

Ah! A força do texto dos Beatniks que se lançaram as mais desmedidas experiências e vieram até a América do Sul para tomar este chá. Escrever, para eles e pra mim é tradução. Ah! Amo quando Rimbaud, Oswald, Gilberto Gil, Caetano, Torquato neto e Waly Sailormoon fazem música e poemas com suas experiências. Mesclam suas escritas com suas vidas.

Mirante (num tom recitativo)

 

Vem cipó, retira de mim o tédio, me coloca em contato com a vida pulsante, e ponha novamente no meu caminho

 

Pensamento

Várias são as formas de sermos arrebatados por momentos como esse que passei – pulsantes de intensidade.

Paisagem 

 

O mirante esfrega a mão no gramado. E passa a se arrastar no chão. Não há limite entre ele e a grama. De repente sofre ânsias de vômitos, se debate com seu próprio corpo. Ele é tomado por uma turbulência da bebida em seu estômago. Respira forte diversas vezes, volta a pensar e a substância volta a lhe arrebatar. Respira novamente e se ajoelha com certa calma como se soubesse que viveria aquilo. Começou.

INTERFERENCIAS SONORAS

 

FIM DA CENA I.

II – PSICOTRYA VIRIDIS

Pensamento

Nuh! Perdi quase tudo o que bebi. Não foi possível segurar. Será que os outros viram? Nossa senhora… É muito forte. Esse chá é muito forte. Mais forte do que todos os outros.


Mirante

A bebida está se enraizando em mim. A terra pulsa, borbulha comigo. O que saiu de mim me desfez, desfazendo a minha fronteira com o mundo.

Paisagem ( desce da varanda )

 

Ele vê seu vomito vermelho, encosta assustado naquilo que é chá e sangue. Nem por isso se sente mais fraco. Trata-se de uma troca sanguínea com a terra.

Pensamento ( andando em círculo )

Eu estava sofrendo uma transformação! A minha soberba em relação ao meu autocontrole se esvai. Eu nunca tinha sentido as coisas assim… O meu tato não é mais o mesmo. Posso sentir novas formas. É a ayahuasca, uma substância fora de mim.

Mirante

Me sinto enraizando. Eu como todas as outras árvores. Ah, a umidade do solo.

 

Paisagem

 

Ele procura com os pés o chão frio, acompanha as árvores em suas posições naturais.

 

( ainda em círculo)

Haux, Ibã estou aqui com o cipó, lembrei de você. Se não fosse os Kaxinawá, será que eu teria conhecido isso? O mundo encantado, não é? Um lugar de imagens entre a morte, a imaginação e o sonho, o mais vivo: a Miração.

A paisagem sonora se intensifica e o mirante em pé fixa o olhar num ponto. É a chegada de um grupo de luzes. Cada uma delas emana de um ponto mais intenso e segue até quase o chão, num enfraquecimento gradativo. São feixes apontados para baixo.

 

EFEITO  DE PIROTECNIA DA ILUMINAÇÃO COM SONOPLASTIA

( os atuantes param de frente para a platéia, estão todos no mesmo plano )

 

FADE IN AUDIO MÚSICA ‘MIRAÇÃO’

 

 

 

Eu estou vendo luzes. Luzes!

Eu não acreditava que via luzes.

Elas tem uma forma. São seres.

Serão espíritos? Será que é isso o mundo invisível que os indígenas tanto falam?

Ei vocês… ei vocês!!!

( Paisagem aproxima um vaso de plantas do público )

Eles se afastam com medo. As luzes fazem movimentos irregulares perto de uma árvore.

 

Devem ser pessoas com lanternas… Ei vocês… Quem está aí?

Não. Eram luzes mesmo. Não havia ninguém por perto.

 

Puta que pariu! Eu estou vendo a passagem para o outro lado, o mundo encantado. É a química atuando sobre minha percepção.

Não é nada. Não é nada. Isso não deve ser nada.

Virando o rosto para outro lado. Sente um medo profundo. Tem uma percepção e nos conta: (os três atuantes juntos)

Por que não ser místico?

Se a vida é um mistério

Se depois da morte tudo será

Deus é um buraco no peito do sujeito

E o amor é força que leva, muito antes de Adão e Eva

E ninguém sabe por onde, para onde e como saciá-lo.

 

Um riso nervoso eclode.

Eu que sou completamente materialista tive a alegria de ver o que estava vendo: a beleza! Que bonito chamar algo que você não sabe o que é de beleza. Não cabia dentro de toda a concepção que eu tinha, quer dizer tenho. Um delírio.

De lírio. Da lira, da poesia lírica, do poema que é qualquer concepção de gênese, qualquer mito de criação do homem e do que vem a ser os mundos.

O importante é que haja uma comunidade que suporte o delírio. Mas a partir daquele momento mudava tudo o que sempre chamei de real.

 O invisível se mostrou para além da matéria.

Foi um momento de virada, eu era altamente racionalgregoeurologos…

O mirante deita-se em estado de vigília. Silêncio (Pausa). Há somente uma luz fraca que o acompanha. As imagens surgem cinematograficamente e contracenam com o Mirante. Nelas o avô veste roupa de exército, assim como vários outros numa grande concentração, onde todos militarmente jogam capoeira.( Pensamento e paisagem dançam capoeira ) Zum zum zum zum zum zum capoeira mata um.

, o senhor está jogando capoeira? Por que? Vô, o senhor vai para a guerra? Por que esse uniforme, não vá , essa guerra é uma tolice. Não vô, eles não vão te levar. Gosto de saber que o senhor pratica capoeira, mas guerra não. Por que todos estão gingando juntos? O Brasil treinou seus combatentes com a capoeira?

 

Incrível, vejo meu vô. Era verdade o que ele dizia. A materialização de um delírio, e por que era meu avô, com tanto afeto ancestral, que descobri ali minha linhagem. Independente da minha vontade eu tinha uma herança. E o mistério da vida e da minha percepção se revela no passado.

Eu era neto, avô, bisavó, tataravó.

 

Ele se sente envolto numa placenta.

O filho perguntou pro pai:
“Onde é que tá o meu avô
O meu avô, onde é que tá?”                                                                                               O pai perguntou pro avô:
“Onde é que tá meu bisavô
Meu bisavô, onde é que tá?”                                                                                                 Avô perguntou bisavô:
“Onde é que tá tataravô
Tataravô, onde é que tá?”                                                                                              Tataravô, bisavô, avô
Pai Xangô, Aganju

Viva egum, babá Alapalá!                                                                                                Aganju, Xangô
Alapalá, Alapalá, Alapalá
Xangô, Aganju

 

Não cabia mais em meu ser, as concepções que minhas leituras filosóficas faziam com que eu entendesse a existência, num instante tudo estava por água abaixo. Eu estava sendo tragado

O mirante recebe uma borrifada de água na cara. É o guia de sua viagem. Ele já quase se perdia no encantado. Era preciso que ele voltasse. O mirante rindo se levanta do chão. Voltam as luzes.

 

FIM DA CENA II.

III – INSIGTH

 

 

Eu vejo! Eu vejo e isso é fato. Há um mundo invisível que nos circunda. E ele é concreto. Não se trata de espíritos sem corpos. Tudo é muito mais do que nossos limites podem nos deixar ver.

 

Cai o véu de maia. Os olhos humanos suportarão a clarividência?

 

Não sei como vou contar isso, ninguém vai acreditar. A verdade tem suas regras para que possamos nos comunicar. Se eu agora vejo, e ninguém vê comigo, quem acreditará em mim? Serei só mais um louco.

E agora…

 

Para que busquei tal visão? Achei que tudo estava visto.

As luzes não me dizem de onde vem. Conversemos?

 

E agora como voltarei para meu povo? O que farei com isso?

 

Um lunático? Um sábio? Um alucinado?

 

Terei eu possibilidades de percepção mais apuradas, de maneira que os outros não têm?

O mirante se aproxima da luz e imita seu movimento. Aos poucos, eles produzem movimentos sincronizados. As luzes o conduzem na direção de uma bananeira. Ao aproximar-se o mirante vê um morcego. Eles se olham olhos nos olhos por alguns instantes.

(Atuantes comem banana)

Você vem para cantar

Eu pensei que você vinha

Você vem para cantar

Eu pensei que você vinha

Ou você não vai

Ficar em pé parado

E cantar alto

Ou você não vai

Ficar em pé parado

E cantar alto

 

Como surgiram as culturas? Haveriam visões como esta no início? Os Maxakalis desenvolverem tantos rituais? Cada bicho, cada planta, cada objeto que carrega afeto para o povo Maxakali é espírito, e é um corpo.

Um mundo novo acaba de se abrir.

Naquele dia eu deixei de cogitar e aceitei.

 

É alguma mensagem.

 

Dava-se início a um estilo, uma profecia, uma cultura. Ah… Quanta pretensão…

 

O cipó, a sinuosidade da cobra. O medo animal do humano. A cobra conta a história. Na pele dela estão os desenhos da arte  humana. O humano bebe o cipó, sinuosidade da cobra.

 

De repente a noite ganha uma aureola de luz. As árvores ganham a cena. A lua está lá e as estrelas despontam no céu. Ele olha surpreso mais uma vez, no entanto, o céu é indiferente as suas dores e alegrias.

 

Posso ver todas as constelações dos doze signos. As constelações num único céu, de uma vez só. Nunca foi possível ver todas as constelações assim. Ah… Quanta pretensão…

 

Os antigos viviam completamente o céu. Sabiam guiar-se pelas estrelas. Foi preciso uma observação prolongada para se entender passo a passo os meses, os anos, os signos. Quantas civilizações a lua não viu desaparecem?

 

O zodíaco. Todos os signos na circunferência da abóboda celeste. As cartas. O tarô. O Leão egípcio, na cabeça, deus do sol, o touro, a virgem, a libra, o sagitário. A mitologia grega. Pegasus. A Astronomia. Os deuses indianos. Krishna que se metamorfoseia em Cristo, que é a tradução de Oxalá. Visões de um menino debaixo da árvore tendo a iluminação: Buda. De dentro dele sai como num zoom o Brasão do Clube Atlético Mineiro. 

 

Tudo que ele fala pode ser visto em imagem. E a imaginação do sonho toma sua percepção num ressalto. A luz das coisas pode mudar, a composição da cena pode mudar, toda visão é uma colagem.

 

Todos temos nossos ancestrais. Todos os deuses, todos os Pais, todos os nomes e signos.

Os meus antepassados deixaram diversos traços meus que eu nem tenho consciência. Mas inconsciente que sou, de repente, tenho toda a história da humanidade condensada em mim.

Mirante

 

Tudo está condensado aqui como num fractal. É como um furo no tempo, um buraco negro, um sonho que implode o próprio tempo.

 

Ele contorna as traves formando o símbolo do infinito. E corre para dentro da mata.

 

O fluxo da vida transcorre independente de nós, as possibilidades são estonteantes e por desvio se tornam plataforma para outro deus, outro pai, outro nome, outra traço. Várias variáveis invariavelmente. Deglutições antropofágicas. Uma velha negra na África e suas migrações e suas transformações pelo mundo, para cada caminho e para cada paisagem, uma experiência e seus Deuses; tantas divindades quantos forem os delírios e suas forças para seduzir, cooptar e permanecer criando transcendências.

 

 Pulsa em todos os seres o mesmo mistério. Wally Salomão nos grita que A vida é sonho. A vida é sonho. A vida é sonho. A vida é sonho.

De repente, eu tinha um insight depois do outro. A vida é um sonho, o mundo uma miragem.

Ele volta e cai se contorcendo, num êxtase. E uma profusão de imagens de artistas e magos de nossa cultura se montam no cinema consolador da cachola. Jim Morrison canta e dança com o olhar vidrado, os Beatles meditam na índia. Gilberto Gil na justiça e seus retiros espirituais. Roberto Piva toma chá de cogumelo.

Visões, visionárias, viagens lisérgicas, antepassados indígenas numa praia da Califórnia. Lucy in the Sky with Diamonds. O insight dos dedos de Jimi Hendrix e sua lisérgica experiência. As vivencias de Carlos Castanheda. Rimbaud e suas visões de absinto. As profecias de William Blake. O Aleph de Borges. Miguel Capobianco Livorno. O dia 23, epifania para os amigos…

O dia 23, 23, 23.

The songs remain the same. O rito, o mito, o ritmo. Nada será como antes.

IV – AFETOS

Meus amigos…minha comum idade.

 

(Todos fumam)

Naquele momento, eu pude sentir que estava com os amigos. Eu tinha o poder de estar um instante em suas vidas, em seus corpos, incorporação. O afeto me concentrava em quem ele queria.

 

As luzes cessam, ele para, pensa, é tomado por impressões fortes, cada amigo lhe projeta um corpo e um estado de espirito.

 

(todo o cenário parece distorcer-se em sombras moventes)

 

Marcelo

 

Sinto paz em estar nele.

 

Plaina como ave entre a vida e a morte. Teve pais muitos bons. A imagem de serenidade da mãe se despedindo é o que acalma tudo. Decorre-se na música.

 

Ah, que destreza sinto nos dedos. Como é bom solar uma guitarra assim, que poder.

Tem tanto carinho pelos outros que isso aumenta seu talento.

 

Júlio

Angústia.

 

Quer muito, idealiza, tanto que às vezes não sabe o quê.

A Pantera negra caminha certeira dentro da floresta. Sua capacidade intuitiva como a que estou tento agora é gigante e é capaz de se angustiar por saber o porquê do outro.

Como me falta tranquilidade. Não tenho tempo a perder. Alguns seres são menosprezáveis. 

Enquanto alguém fala, sua inteligência já captou o subentendido e quer dar a resposta.

Para ele tudo é muito.

Roberto

Mal-estar. Revolta.

 

A vaca rumina seu destino no mesmo pasto. Algo com ele não está resolvido. As relações com seus pais não são tão boas. Estar em casa é estar reprimido. Ao mesmo tempo há uma inércia.

Não consigo deixar a casa dos meus pais.  

Uma repressão velada de muito carinho torna as coisas mais difíceis.

Alice…

 

Afeto. Amor distante.

 

A cobra tem a sinuosidade do cipó. Capaz de fazer formulações incríveis. É impulsiva, mas no fundo tem medo. Tem o desejo tão grande por todos que… Vê as pessoas de longe, um olhar oblíquo.

 

No fundo, uma dispersão: querer tudo sem se ligar a nada.

Não dá para descrever agora o que acontecia naquela paisagem. Ele ali, com corpo desajeitado, mas completamente conectado com o que tinha de mais afeto.

E minha mãe.

 

A grande sabedoria do amor incondicional. O amor de uma mãe para um filho.

Eu carinhosamente agradeço minha mãe que me ensinou o mais radical amor de todos. Ela aparece em minhas impressões sempre com o olhar da mais sábia ternura.

Ternura da consciência que até o menor olhar deve demonstrar o que se deseja transmitir.

Havia ali um poder na capacidade de concentrar e meditar. Uma inteligência anormal de fazer conexões, numa catarse visionária.

Essa capacidade me dava, se eu tivesse calma e decantasse o que eu sentia, uma maneira mais adequada de lidar com cada um. Eu poderia indicar caminhos que muitas vezes eles próprios não percebem.

Às vezes basta a gente fazer a pergunta: é isso mesmo que você quer?

Romper a barreira e ver a perspectiva do outro.

 

Eu desejo o que eles desejam, eu podia pensar com eles por dentro.

 

O que serão esses poderes? Mediunidade? Estou ficando louco?

 

O que farei se a partir de agora eu puder sempre ler as impressões de quem eu gosto? É um chamado? Serei agora obrigado a ter que me ater ao outro.

 

O saber que tanto buscamos, vem numa grande torrente e nos dando mais do que é tragável, transborda, fica over, retira a graça. O mistério a se desvelar sempre, pouco a pouco, a indicação do oráculo, que não dizendo tudo, deixa o algo mais para o futuro.

 

Eu sabia que em algumas comunidades indígenas a formação de um pajé, muitas vezes, está ligada a capacidade de viver continuamente esses momentos de pressão. Eu vislumbrava um poder. Mas me angustiava bastante a dissolução de mim e a responsabilidade pelos outros.

 

O mirante chora tampando os olhos. Ele se pensa como um padre, que conta pata os seus seguidores suas experiências com Deus. Um pastor, capaz de dizer para corações angustiados sedutoras maneiras de clarear a alma, entendendo onde reside a angustia. Um pajé que continuamente segura a pressão controlando seus sonhos, dedicando-se as histórias e os caminhos de seu povo.

Ah loucura,

coloquei meu rosto em tua superfície calma

e vi o outro lado de profundezas abissais.

Lá está um turbilhão de imagens proliferando

a cada instante sem quê nem porquê.

Graças a deus, pude retirar meu rosto de tuas águas.

E ficar com o delírio que tu guardas.

A sanidade é uma dádiva.

 

A sanidade é uma dádiva, eu não quero me responsabilizar pelos outros. Quantas angústias, quantos dilemas e quanta frustração não há nos corações humanos. Eu não quero saber de tudo. A loucura não é a privação, é ver tudo.

Não queria nada disso. Parece que tendo todo o sentido, perderei o sentido, a direção do amanhã, e não terei por que acordar.

 

FADE IN AUDIO MÚSICA ‘DECLÍNIO DA MIRAÇÃO’

 

A velocidade que os insights e as associações se faziam em mim. A irresponsabilidade dos Beatnik me dizia que tudo deveria se tornar escrita. Por no fluxo da escrita as imagens que me vinham, escrevendo mais do que entendendo.

 

O Mirante se deixa levar pela música. A música é o corrimão da mente.

 

V- OROBOROS: A COBRA QUE COME O PRÓPRIO RABO

 

Com rosto sujo de quem viveu uma batalha intensa consigo, sorri, respira fundo. Pela primeira vez volta a olhar para a roda, onde estavam as outras pessoas. Ele se levanta e se limpa um pouco.

Ah, não é que eu seja sem rumo sem norte, sou o que sou, sou filho da morte.

Não é que eu seja sem rumo sem norte, vivo a vida, sou filho da sorte.

 

Ele se lança contra o vento. O vento ganha corpo e ele se deleita. O vento tinha a consistência.

 

Ô forças maiores, juro que sou grato. Agradeço mais uma noite de revelações, e quando for o momento voltarei. Quero estar com os meus. Tocar, acariciar, o carinho do outro é maior que todo esse pensamento.

 

Onde termina o pensamento, começa o mar do amor. Talvez não possamos contar tudo… Seria demais… Muita coisa é incontável. Fiquemos somente com as experiências que amamos. Amar é dos mistérios mais transcendentais.

 

Eu aceito a condição de não-saber, de continuar em meu filho a ignorância sobre a vida e aceito a morte como um caminho que não tem fim. Ao pão nosso de cada dia, às pequenas descobertas, aceitar as repetições. Escutar música, ver um por do sol e esperar que ele se repita no próximo ano.

 

Ele olha para suas mãos. Ergue a cabeça e olha para a roda.

 

E minha caneta? Não escrevi nada.

 

Diante de tudo, me restava uma experiência impressa em mim, mas num novo lugar.

Ali tive a certeza, me restava a escrita para dar continuidade ao que se escreverá. Escrever é dar forma, acompanhar o fluxo do vivo, numa busca incessante por toda a vida.

Ele deixa o campo e vai de encontro aos outros. Sai de cena e a caneta continua na cerca. Encontra com uma participante da roda e que diz:

– Você não vai acreditar no que aconteceu comigo, cara nós temos conexão com o todo… E você? Você também teve uma Miração?

FIM

MIRA! e veja: a arte contemporânea dos povos indígenas e a cura do tempo

Por Mara Vanessa Fonseca Dutra

(Mestre em Cultura e Sociedade pelo Programa Multidisciplinar Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia. É doutoranda do Pós-Cultura da UFBA. Participa do projeto Yuraiá, o rio do nosso corpo, espetáculo teatral de João das Neves, e da criação de cinemateca nas aldeias Tupiniquim do Espírito Santo.)

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A exposição MIRA! Artes visuais contemporâneas dos povos indígenas, realizada em Belo Horizonte, no Centro Cultural da UFMG, de 14 de junho a 11 de agosto de 2013, reuniu mais de 100 obras de 53 artistas de 27 etnias do Brasil, da Bolivia, da Colômbia, do Equador e do Peru. Na semana de abertura, de 14 a 22 de junho, a UFMG promoveu um seminário com a presença de grande parte dos artistas indígenas convidados.
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O título da mostra buscava, por si mesmo, instaurar um debate, ao falar de artes contemporâneas dos povos indígenas e não de artes indígenas contemporâneas. Em seu enunciado, buscava contribuir para romper as etiquetas que limitam essas expressões artísticas aos terrenos étnicos, ou das marcas identitárias. As mais de cem obras reunidas na MIRA! não eram objetos ou signos tradicionais, mas pinturas, esculturas e instalações surpreendentes e fora de qualquer clichê, imagens cheias de fluidez. Essa nova pintura indígena é a criação de indivíduos que percebem o mundo e o expressam a partir da tensão entre conhecimentos ancestrais e criatividade pessoal (BELAUNDE, 2013), da perturbação do artista indígena inserido na experiência da modernidade, da vida urbana, vivendo concomitantemente tempos diferentes. Segundo Belaunde (2013), os novos pintores indígenas “se reafirmam como criadores artistas individuais, ao mesmo tempo que são a voz da memória coletiva”, numa interrelação entre “o que é muito antigo e profundo e um outro tipo de criação, que é sempre misterioso – essa criação artística individual” (MINDLIN, 2007). Alguns desses jovens artistas conseguiram romper com a etiqueta de “artistas indígenas” e já ocupam lugar no mercado de arte internacional ou em seus países – como o caso de Rember Yauarcani, Brus Rubio e Kindi Llajtu, o que ainda não ocorre no Brasil. Uma das intenções da exposição foi também contribuir para chamar a atenção do mercado brasileiro para esse tipo de arte.
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O convite da exposição MIRA! foi o de mostrar “paisagens existentes no real do pensamento, da memória, do sonho” (ALMEIDA, 2013), um convite para que os expectadores pudessem entrar na “miração”, na experiência indígena do mundo. Havia uma clara intenção de provocar o olhar dos visitantes para as manifestações de uma estética chamada de “visionária” pela curadoria da exposição, como um convite à percepção de outros mundos ou de outras formas de ver o mundo a partir da criação dos artistas indígenas, a maioria jovens. A nova pintura indígena é um exercício de tradução, tanto para os artistas que a produzem quanto para quem se permite aceitar o convite e entrar nesse “jardim selvagem”- o jardim que permite a diferença, sem hegemonias, “o jardim que o pensamento permite”, nas palavras da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol (LLANSOL apud ALMEIDA, 2007).

A divisão da realidade entre o inteligível e o sensível, que está na base do pensamento ocidental, hierarquiza as manifestações culturais e artísticas e o conhecimento produzido por diferentes povos. Os novos pintores indígenas, com sua estética visionária, traduzem conhecimentos xamânicos e visões de mundo que não se apoiam nessa dicotomia entre o inteligível e o sensível. A nova pintura indígena traz outras formas de ver o mundo, perspectivas distintas, mostrando o que normalmente não se vê. São, nas palavras de Luisa Elvira Belaunde (2013), “pintores de cosmologias, pintores do invisível”, revelando a direta relação entre a arte e a cura, entre o artista e o xamã. A questão central é sempre a cura – em último caso, a cura pela inscrição das imagens indígenas no mundo. O artista (como o escritor) seria o médico de si mesmo e do mundo (DELEUZE, 1996).

A relação entre arte e cura foi um dos temas do seminário e uma das maiores salas da exposição estava dedicada ao que se chamou de “arte visonária”, na qual as pinturas traduziam experiências xamânicas de cura, mostrando como estética e terapia andam juntas, do ponto de vista indígena. São pinturas em que o traço, o figurativo, as cores e o brilho, pelo uso de tintas fluorescentes, criam um ambiente que seduz o olhar do visitante, pelo profundo estranhamento que causam. Essas pinturas xamânicas, que sobretudo no Peru criaram escola e ganharam espaço no mercado de arte, são um componente novo na relação de poder entre indígenas e não indígenas, subvertendo a ordem hegemônica que exclui os índios (BELAUNDE, 2013), porque, embora estes continuem sendo os mais pobres e discriminados, ao trazerem para as telas as experiências xamânicas de cura, tornam-se – os pintores indígenas – apesar de subalternos, sujeitos de poder. São eles que, aos olhos do público não indígena urbano, possuem o conhecimento, “a experiência pessoal de outros mundos” (BELAUNDE, 2013), já que sua pintura expressa vivências reais.
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Os assim chamados pintores visonários explicam que seus quadros têm um forte componente vivencial, de experiências pessoais nos momentos de práticas de cura, especialmente com o uso da ayhauasca – eles pintam o que vêm e vivenciam nesses momentos. Joaquim Maná (2007), pesquisador indígena Huni Kuin, explica que, para o pensamento indígena, cada conhecimento tem que ser dominado por uma pessoa que, para dominá-lo, tem que conhecê-lo – vivencialmente. Esse “caráter testemunhal das pinturas intensifica sua força de transgressão”, segundo Belaunde (2013), ao afirmar que os seres e as cenas que estão representados são reais. De alguma forma, afirmando ou levantando dúvidas sobre a existência de outras formas de cura, em mundos totalmente alheios às tecnologias da medicina e da farmacêutica ocidentais, transgride. Por isso, segundo a autora, é uma pintura subversiva, “uma arte dos subalternos” (SPIVAK apud BELAUNDE, 2013), uma vez que, ao mesmo tempo que entra, de certa forma, nos padrões figurativos ocidentais, escapa do mundo controlado pelo capital e pela tecnologia, ao tratar de outras ordens de vida e morte (BELAUNDE, 2013). Ao tornarem-se objeto de apreciação no mercado internacional de arte, essas pinturas contribuem para mostrar partes da perspectiva indígena do mundo, invertendo a hieraquização negativa a que esses conhecimentos estão submetidos. A chegada dos artistas indígenas aos salões e ao mercado de arte contemporânea com esse tipo de pintura contribui para o esforço de interculturalidade levada à sério (MIGNOLO, 2007), na medida em que os conhecimentos indígenas possam ser vistos não como alternativos, ou como menos conhecimento, mas simples e plenamente como conhecimentos, nas palavras do intelectual indígena Gersem Baniwa (BANIWA, 2007).
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Kanatyo Pataxó, artista e educador indígena, explica que “o índio aprende pelo olhar. Ele faz a leitura pelo olhar, pelo corpo, pelo espírito. Fazemos as traduções através disso.” E que, portanto, “é muito importante a ponte entre o espírito e a linguagem”. Essa ponte, essa tradução, é o que buscam os pintores indígenas, nas palavras de Benjamin Jacanamiyoy (2013): “es un ejercicio de contar la própia historia, que no podíamos contar – traducirla para los demás, ahora. Considero el arte como un parto – se tiene que criar una nueva vida, que se tiene que existencializar – por medio de las figuras, de nuestras imaginaciones”. Mostrar o que é invisível, o mundo espiritual indígena, é também uma forma de dar visibilidade dos povos indígenas como cidadãos, como pessoas de vanguarda. Rember Yahuarcani, jovem e premiado pintor peruano, conta como aprendeu com seu pai, Santiago, a dar corpo aos espíritos e personagens míticos, provocando-se um ao outro em um exercício de criatividade conceitual e plástica (BELAUNDE, 2013). Estavam os dois presentes na exposição MIRA!, pai e filho – uma relação entre as gerações em que parece que não existe a necessidade de “matar o pai” para afirmar-se como indivíduo, como artista, mas, ao contrário, em que a ideia da continuidade e da troca entre as gerações é valorizada e desejada.
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O trabalho de Marisol Calambás, jovem artista colombiana, é muito esclarecedor, nesse sentido. Marisol é do povo Nasa, mas cresceu afastada de sua comunidade – “com ignorância em relação à minha comunidade indígena”, em suas palavras (CALAMBÁS, 2013). Viveu uma situação marcante quando, adolescente, foi morar com a avó e descobriu que não podiam comunicar-se com palavras, porque a avó só falava a língua indígena e ela só falava o espanhol. Essa vivência foi fundamental para que, ao estudar arte, Marisol começasse a se transformar “fazendo memória, recordando”. Buscou reconstruir os laços com a mãe e coma avó a partir das cicatrizes e marcas no corpo e a relacionar essas marcas com a simbologia artística de seu povo, especialmente o chumbe, que é uma faixa usada na cintura sobre o útero, e de sua própria pesquisa sobre a língua materna. A proposta de Marisol é de transformação e os elementos são o corpo, a memória, o traço, o umbigo, a língua. Em seu trabalho, intitulado “Nasa Yuwe” (Nossa Língua), a artista usa o corpo como suporte – como nas pinturas corporais indígenas, em que o traço faz a pele, cria o corpo (Els Lagrou, 2013) – e traça o caminho da memória: uma espiral que sai do umbigo, o leite, a língua, o fio que a une à mãe, à avó, à ancestralidade.
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Para ela, a questão de como se relaciona o pensamento ancestral com a arte contemporânea é a transformação que permite criar memória e ensinar a ver essa memória, “para que o objeto, quando seja lido, não deixe dúvidas de onde veio, quem o fez”, mas que as imagens indígenas não fiquem estancadas, presas como nos suportes tradicionais – pintura corporal, tecidos, cerâmicas – e vistas como objetos decorativos. Sua proposta é criar imagens nas memórias de todos, indígenas e não indígenas, para que o pensamento indígena vivo faça parte do imaginário comum.

Marisol faz uma reflexão de que toda produção artística está “permeada de ocidentalidade”, desde os materiais, os pigmentos, tudo. “Talvez eles (os não indígenas) não estejam (permeados) de nós, mas nós deles” CALAMBÁS, 2013). Entende que as estéticas indígenas tenham que se manter e ao mesmo tempo se transformar, guadando as diferenças irredutíveis, a singularidade que permite a criação de mais e mais diferença. Dá um exemplo: “a palavra “abstrato” não é o mesmo para o pensamento europeu e para o pensamento indígena. Para o indígena, uma espiral não é a representação do sol, é o sol. O sol está presente na espiral. E não é a mesma espiral, se a desenhamos num pedaço de terra, ou com sangue” (CALAMBÁS, 2013).

Kindi Llajtu, colombiano, do povo Inga, que alcançou renome internacional com sua pintura em que se mesclam o figurativo e o abstrato, à base de traços muito finos, aéreos, de extrema leveza, já quase não pinta mais: prefere fazer instalações que não permanecem. Explica que trabalha com o efêmero e que a relação da arte com o tempo é também uma relação de cura – o que se cura é o próprio tempo. “Estamos em 2013, mas para muitos, estamos vivendo em outro tempo. O tempo são as experiências, que me dão como presente sensações, lembranças, vivências” (LLAJTU, 2013). Ele conta que foi pintar uma pedra sagrada e que, ao começar a limpá-la, percebeu que na verdade estava limpando ideias que tinha guardadas no coração. “Pintei a pedra de cor verde e começaram a sair muitas formas; o jogo foi um tempo de refrescar a minha memória. Quis brincar com outros símbolos, esses urbanos: o leite vem da geladeira, ou do supermercado, este é o tempo urbano ocidental. Quero fazer ressurgir outros tempos: o tempo das nossas histórias, do conhecimento que vem do coração (samay), compreender as visões, semear os sentimentos, aprender a sentir, a ver com o tempo do coração, do espírito da nossa cosmogonia”(LLAJTU, 2013).
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Esse tempo do coração é também o lugar aonde as obras de arte desses pintores indígenas querem chegar, considerado como centro de cada ser. O objetivo é sempre a cura pelo conhecimento, pela ancestralidade. Benjamin Jacamiyoy conta que aprendeu com seu pai que o conhecimento primeiro chega ao ventre, considerado um espaço espiritual onde se guardam os segredos mais íntimos do ser humano. Depois, passa ao coração, em seguida ao cérebro efinalmente sai ela boca como palavra de poder e conhecimento. Ficar samay significa ficar com o alento do outro no coração, seja esse outro um ser humano, animal, vegetal ou mineral, mas é compreendê-lo como possuidor de força e de vida. Ao contribuir para que as pessoas fiquem samay, a nova pintura indígena continua transformando no aqui-agora a arte ancestral de “pensar bonito caminhando com o coração contente” (JACANAMIYOY, 2013).
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Mais que surpreender o espectador, a arte contemporânea dos povos indígenas busca chegar ao coração das pessoas, criando espaços de pensamento selvagem em que o que importa é a liberdade de trânsito, o caminho, não a chegada. É estar em passagem, no aqui-agora, em situação de potência, numa floresta em que cabem todas as diferenças, irredutíveis e por isso mesmo criando novas diferenças e possibilitando uma nova comunidade de signos – o exercício poético – na qual podemos nos ler uns aos outros. Esse “jardim do pensamento selvagem” (ALMEIDA, 2007) não é um espaço indígena, nem um espaço ocidental, mas um lugar de encontro pela graça da arte. É um espaço de nosso devir indígena que torna possível a troca, o entendimento, a cura profunda. Como disse Davi Kopenawa Yanomami, no evento Diálogos Interculturais, ocorrido em Minas, em 2007: “Eu sou índio e vocês também são índios. Você pode dizer: Eu sou branco, mas você também é índio. (…) Por isso tentamos acordar seu pensamento” (KOPENAWA, 2007).
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REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Maria Inês de. Estética visionária. In: MIRA! Centro Cultural da UFMG. Belo Horizonte: UFMG, 20132013
ALMEIDA, Maria Inês de. A física do futuro virá pelos atabaques da África. In: Diálogos. Belo Horizonte: Viva Voz/FALE/UFMG, 2007.
BANIWA, Gersem. Tolerância moderada e os desafios da interculturalidade. In: Diálogos: Educação intercultural. Belo Horizonte: Viva Voz/FALE/UFMG, 2007, 2007.
BELAUNDE, Luisa Elvira. A pintura visionária xamânica da amazônia peruana. In: MIRA! Centro Cultural da UFMG. Belo Horizonte: UFMG, 2013.
CALAMBÁS, Marisol. Artes visuais contemporâneas dos povos indígenas. Palestra proferida no Seminário MIRA! Centro Cultural da UFMG. Belo Horizonte, 2013.
DELEUZE, Giles. Crítica y clínica. Trad. Thomas Kauff. Barcelona: Editorial Anagrama, 1996.
JACANAMIYOY, Benjamin. Arte como transformação. Palestra proferida no Seminário MIRA! Centro Cultural da UFMG. Belo Horizonte, 2013.
LAGROU, Els. Artes visuais contemporâneas dos povos indígenas. Palestra proferida no Seminário MIRA! Centro Cultural da UFMG. Belo Horizonte, 2013.
LLAJTU, Kindi. Experiência criativa nas comunidades indígenas. Palestra proferida no Seminário MIRA! Centro Cultural da UFMG. Belo Horizonte, 2013.
MANÁ, Joaquim. XXXXXXX. In: Diálogos. Belo Horizonte: Viva Voz/FALE/UFMG, 2007.
MIGNOLO, Walter. La idea de América Latina: la herida colonial y la opción decolonial. Barcelona: Gedisa editorial, 2007.
MINDLIN, Betty. Oralidade e escrita. In: Diálogos: oralidade e escrita. Belo Horizonte: Viva Voz/FALE/UFMG, 2007.
PATAXÓ, Kanatyo. Escola da terra. In: Diálogos: tradições e traduções. Belo Horizonte: Viva Voz/FALE/UFMG, 2007.
YANOMAMI, Davi Kopenawa. Conhecimento e reconhecimento indígena. In: Diálogos: tradições e traduções. Belo Horizonte: Viva Voz/FALE/UFMG, 2007.

Una Exposición Paradójica: Artes de los pueblos indígenas recorren los mundos andino-amazónicos

Por: Edgar Bolívar Rojas. Antropólogo.

Museo Universitario de la Universidad de Antioquia

Medellín – Colombia

Existen muy diversos modos de generar interés por una exposición de artes visuales en el mundo contemporáneo, a partir de una batería de estrategias de marketing y publicidad, suficientemente conocidas en el ámbito de las galerías y los museos, inmersas a su vez en un conjunto de dispositivos que involucran revistas especializadas, notas y columnas en periódicos y espacios televisivos, y el picante comentario de algún crítico renombrado que enciende polémicas sobre tal o cual autor, obras o tendencias. Sin embargo, este no es el caso de la exhibición parcial del conjunto de obras que alberga la Casa de la Cultura de América Latina, una sección del Vicerrectorado de Extensión de la Universidad Nacional de Brasilia, aunque merecería tal despliegue por el impacto que provoca la diversidad de temas, técnicas y lenguajes expresivos de medio centenar de artistas y más de cien creaciones que han sido congregadas en Brasilia desde comienzos de diciembre de 2013. Se trata de la segunda fase de itinerancia de un colosal proyecto incubado en rigurosos procesos de investigación, acompañamiento y cooperación con pueblos y organizaciones indígenas brasileras y amazónicas, inaugurado en agosto de 2013 en Belo Horizonte, gracias al impulso y coordinación del Centro Cultural de la Universidad Federal de Minas Gerais -UFMG. Este circuito cruzará fronteras al visitar Colombia y Perú en la segunda mitad de 2014.

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El contexto

Hasta aquí aparecen suficientes ingredientes para pensar en la magnitud del esfuerzo personal e institucional requerido para convertir en realidad una iniciativa que fue tomando forma y sentido a la par del reciente auge del movimiento por los derechos de los pueblos, y que representa algo más que una corriente estética de individualidades reconocidas en sus respectivas regiones y países de origen. Desde varias fuentes pueden identificarse significativos flujos intelectuales, políticos, culturales y sociales que cristalizan en “Mira!, Artes Visuais Contemporaneas dos Povos Indìgenas”. La expansión del “agronegócio” y grandes proyectos de infraestructura, han minado en recientes años la legislacion ambiental y los derechos indígenas en Brasil generando numerosas polemicas e indignacion.

En forma simultánea, en el fragor de estos intensos acontecimientos, el avance en las investigaciones y publicaciones sobre las lenguas, las literaturas, la condición de los últimos pueblos aislados, o sobre las medicinas tradicionales y los saberes de la selva, prosiguen como una opción legítima que la academia esgrime a favor del respeto hacia las lógicas, los conocimientos y las resistencias de las comunidades, en la continuidad de una saga en la que converge tanto la memoria del ambientalista Chico Mendes como el respaldo y simpatía colectivas que se suman a esa envolvente espiral que un día de junio de 2012 se desplegó en la Cupula de los Pueblos, en Río de Janeiro, paralela a la Cumbre Rio+20.

La idea

Mira!, artes visuais contemporáneas dos povos indígenas esun proyecto de extensión universitaria inspirado en el fomento y difusión de una producción cultural de vasta cobertura, de alcance transnacional y de fecundas consecuencias en cada acto cotidiano de puesta en relación con las instituciones de apoyo y con los públicos que celebran y gozan, en reflexivo deleite, la explosión caleidoscópica de temas, técnicas, colores y formas que, de un modo secreto pero descifrable, narran, recrean y proponen diferentes versiones de la alteridad radical desplegada en la floresta amazónica, los desdoblamientos chamánicos, los conflictos interétnicos, las guerras del caucho, la coca, las maderas y el oro, o las alucinantes imágenes del ritual de las plantas sagradas y de las tramas míticas que se renuevan noche tras noche envueltas en humo de tabaco y polvo de mambear. Mira! es, ante todo, una interpelación y una invitación a contemplar y descubrir más allá de una fugaz observación. Expresada con énfasis, significa instalarse en la mirada profunda y trascendente de la ayahuasca, en un ver con otros ojos desde las claves del saber sagrado. Con razón se dice que una de las experiencias emocionales testimoniadas por el público al final del recorrido es la sensación de hallarse en paz y armonía, bañados en una especie de humanización teñida de hermandad, solidaridad y conocimiento.

Mira! no podría concebirse de un modo distinto de aquel que mejor sabe hacer la universidad, activándose como puente de conocimiento entre generaciones y diversidades, gestora de lazos de interculturalidad y promotora del respeto y la inclusión. Cada momento del circuito ha sido -y debe seguir siendo en cada ciudad y país anfitrión- un espacio para el encuentro y la comunicación, la palabra y la acción, el flujo de aprendizajes y la participación social incluyente. Las jornadas complementarias de mesas de trabajo y seminarios temáticos, los talleres didácticos y recorridos especiales con diferentes grupos poblacionales, han servido como laboratorio de creación y experimentación de una puesta en escena que enriquece las técnicas de la museología social y reinventa el sentido de exponer para formar, educar y generar emocionantes momentos de contacto humano con la pluralidad de la naturaleza y de los universos simbólicos transmutados en lenguajes visuales pocas veces vislumbrados.

Por las razones dichas Mira! propone y demanda una relación sui generis entre el continente –el lugar expositivo- y el contenido -la producción cultural de los artistas de los pueblos indígenas. No es una exposición dirigida al mercado, aunque no está exenta de que los autores puedan o deseen vender y disponer de sus obras al final del ciclo o que comprometan otras creaciones según el interés de los coleccionistas institucionales o privados. Tampoco es una muestra artesanal ni de objetos exóticos, no obstante que todas las obras poseen la calidad y el virtuosismo de cualquier obra maestra, o que determinados objetos ostenten singulares atributos rituales y mágicos que solo puedan ser manipulados por especialistas. Mucho menos se trata de una feria de artistas aficionados, pues el denominador común de todos los convocados es el de una trayectoria en el campo del arte y el de un reconocimiento de sus comunidades de origen como miembros activos y representativos de sus culturas y sus países –Bolivia, Brasil, Colombia, Ecuador, Perú-. Tales condiciones y requisitos han exigido una cuidadosa y paciente labor de varios meses invertidos en tareas de investigación, contactos, trámites en instancias diplomáticas, curaduría y guión expositivo a cargo de un equipo multidisciplinario de expertos vinculados a la UFMG. Esta compleja gestión sobrepasa las posibilidades y competencias de una sola institución universitaria, hecho por el cual Mira! requiere de alianzas y cooperación institucional público-privada durante todo el ciclo y en cada país, para asegurar la sostenibilidad e impacto cultural de cada uno de los componentes.

El Seminario

En cuanto espacio de reflexión y debate, el Seminario lleva la impronta de cada una de las instituciones universitarias que lo acogen. Como lugar privilegiado del diálogo, el Seminario tiende lazos entre discursos y sistemas cognoscitivos, interroga lógicas de la percepción y la representación, abre posibilidades a la exploración de categorías nuevas y se constituye en un oxigenador de esquemas de pensamiento que el orden tradicional de las disciplinas académicas tiende a segmentar, separar y disgregar. Pensar el arte desde categorías como natureza o cultura, confrontar las visualidades desde el mito, revisar episodios y relatos de las historias culturales de los pueblos en la perspectiva de lenguajes expresivos que rompen múltiples cánones estéticos occidentales, o, finalmente, entender los mundos de sentido creados por sucesivos y desafiantes descentramientos de los artistas, arroja un balance de optimismo y renovación en los modos del diálogo intercultural, y en la comunicación con la sociedad. Desde esta dimensión, la participación de la Universidad como instancia que convoca imprime un valor agregado a las premisas de dignificación y respeto por el trabajo de los artistas y pueblos presentes en la exposición.

No menos importante es la participación de científicos experimentados, de docentes de diversas áreas y de estudiantes de todos los niveles de formación. Por su carácter abierto, el Seminario prevalece como un espacio amable donde la palabra se torna dulce y el pensar bonito, según una enseñanza de los pueblos del piedemonte andino-amazónico colombiano. Ello no significa que su tono sea el de la exotización, la liviandad, o el de un sumario de anécdotas e historias personales. Si se quiere apreciar el auténtico valor del Seminario habría que considerarlo como la puesta en movimiento de profundas capas tectónicas del pensamiento amazónico al encuentro con el pensamiento andino. Ese es, ni más ni menos, el alcance de la convulsión intelectual, sensorial y estética del acontecimiento. Y así ocurrió, con toda intensidad, en el transcurso del Seminario llevado a cabo a comienzos de diciembre de 2013 en la Universidad Nacional de Brasilia, UNB.

Arte, Vida y Territorio fue la temática en la cual estuvo inmerso el lanzamiento de Mira! en el auditorio del Memorial Darcy Ribeiro, el singular Beijódromo diseñado por este célebre antropólogo, representante del indigenismo comprometido con los derechos de los pueblos, y primer rector de la UNB. Allí emergió, en primer lugar, la pregunta por la contemporaneidad y lo contemporáneo, categorías que cuestionan la idea de lo moderno, pero que sitúan la producción estética en un plano de equivalencia a los lenguajes del arte en el mundo actual. ¿Qué ocurre cuando se invierten los términos y en lugar de referirse a las artes visuales contemporáneas, se piensan estas manifestaciones como la producción simbólica de pueblos indígenas contemporáneos? No cabe duda de que ciertos reductos del lenguaje colonial permanecen en los sistemas de etiquetación de la diversidad, y que más allá de las polaridades que combinan las nociones de lo moderno, lo primitivo, lo clásico o lo contemporáneo, habría que recordar aquí la sentencia de Claude Lévi-Strauss en Raza e Historia, cuando afirma de modo categórico que todos los pueblos del mundo son contemporáneos, al contener en su existencia una densidad histórica similar, profunda, y generalmente desconocida o ignorada.

¿Desemboca en el mismo resultado la designación que asocia a pueblos contemporáneos con las artes visuales indígenas? El movimiento de los términos produce en este caso una dislocación que al apelar a lo políticamente correcto reconoce una diferencia que excluye. Ese aparente incómodo lugar, el de artistas indígenas, lleva a resultados paradójicos, pues de una parte nombra una realidad en la cual se afirma la expresión particular de los pueblos a partir de los códigos visuales, signos y significados, que son inteligibles para unos y otros, ya sean artistas o comunidades de referencia en los ámbitos de comprensión que les es propio. De otra parte, configura un inocultable espacio de escisión individual, común a todos los autores: el de su reconocimiento como artistas en el mundo del arte, sin apelativos, sin etiquetas que arrastren consigo la carga colonial de la subordinación. Las principales rupturas estéticas y simbólicas residen en este campo que entremezcla sistemas éticos, posturas políticas, poéticas propias y permanentes flujos de arraigo/desarraigo, en parte comprensibles, en parte incomunicables, pero igualmente creativos.

El interesante y polémico encuadre de lo cultural entre lo contemporáneo y lo indígena toma dos direcciones opuestas: o bien fragmenta y neutraliza la capacidad de percibir y gozar unas manifestaciones estéticas como si estuviesen despojadas de su condición de lenguajes propios, o por el contrario remite al reconocimiento de su especificidad en la matriz social que las genera, es decir, la matriz étnica, indígena, que las produce. En cuanto referentes simbólicos de sociedades etnográficamente diferenciadas, este lenguaje visual –composición ordenada de señales pictóricas, objetos, grafías, signos-, más que contemporáneo es arte, a secas, sin otro apelativo. De todo este conjunto de significados a la Universidad le compete reafirmar su misión como receptora nutricia, dando sentido al repertorio de políticas culturales que articulan acciones de gestión del conocimiento abiertas a la integración de otras epistemologías, otras estéticas y otras cosmovisiones. Es lo pertinente a su razón de ser como alma mater, al fin y al cabo.

El Seminario, en síntesis, se transforma en un laboratorio de alteridades que al dar entrada a esta variada producción deja de ser un mero lugar expositivo –sala de arte, galería, museo-, para constituirse en espacio de investigación y creación plural. La exposición de artes visuales, a su vez, al inscribirse en un ámbito universitario, deja de ser una colección de obras para ser leída y admirada, sentida y percibida, como producción de paisajes culturales, regiones simbólicas, territorios del saber, ecologías del espíritu amazónico. Es decir, se opera la transmutación ya analizada por Lévi-Strauss en Arte, Lenguaje y Etnología, según la cual los objetos se desmaterializan a causa de su densidad como obras de arte, sustraídos del circuito de las galerías y el mercado para elevarse al estatus de bienes culturales, mensajes-signos, cuyo valor radica en su condición de relatos y lenguajes provenientes de mundos de sentido únicos y a la vez comunicables.

Los artistas, las obras

Cada artista es un sujeto que se instala en el mundo –tiempo/espacio/memoria- con la totalidad de su existencia como ser humano. Su obra es la expresión de un mito personal que narra vivencias y lenguajes colectivos. El proceso de formación que incluye el paso por academias y escuelas de arte tiene siempre un movimiento de retorno a los orígenes o, como dice uno de ellos, el descubrimiento de que “el futuro está en el pasado”. Ese lugar paradójico del tiempo es su cultura de referencia, los ritos ancestrales, el saber tradicional, las enseñanzas de padres y abuelos. Cuando anteriormente hablamos de escisión individual, es aquí cuando ese pasaje se vive como desgarramiento interior, como ruptura en busca de la integración de la obra con el lenguaje, el pensamiento y el mito en el que se nutre.

Dicho en otros términos, cada obra se convierte así en un archivo de la memoria del pueblo y en un vínculo de interculturalidad hacia el mundo de afuera. No sobra insistir en el hecho etnográfico de la existencia de sociedades sin públicos, como es el caso de la mayoría de estos pueblos. No obstante, el proceso Mira! es también el de la construcción de relaciones inéditas con públicos, liberados de cualquier ismo, moda o tendencia dominante en el arte contemporáneo.

Es así que la exposición propone un modo de ver, como ya se dijo, en el que los criterios de lo moderno y lo académico dejan de ser la medida de la percepción y apreciación de las obras. La exposición es el lugar de encuentro de múltiples contemporaneidades y en sí misma justifica el asombro que tal convergencia produce. Es la consecuencia de un proyecto que desafía el formato de la búsqueda de mercados, o de la satisfacción de gustos, de la complacencia con la crítica, o el enfoque en un público específico de “entendidos” o “conocedores” del arte. La exposición, con todo su carácter paradójico, además de representar ese encuentro de placas tectónicas andino-amazónicas, podría ser entendida también bajo la metáfora del oleaje anual que invierte el curso del río desde el atlántico hacia el interior del continente. Ni más, ni menos, esa es la corriente que moviliza el proyecto Mira!, en la búsqueda de la integración de los países amazónicos, según clamó el antropólogo Pedro Guimaraes, director del Centro Cultural Darcy Ribeiro en las palabras de apertura del Seminario.

Con un catálogo en permanente construcción, Mira! tiene la suficiente elasticidad para dar cabida a nuevas obras y artistas en cada país, igual que el Seminario acoge miradas y acentos particulares en el espacio universitario anfitrión. Del mismo modo que el Memorial Darcy Ribeiro en el Beijódromo de la UNB tiene como eje la escena del ritual Guarupí de los pueblos del Xingú, según el cual su axis mundi es desde 2012 un tronco de cedro que alberga el espíritu del antropólogo, tal espacio sacralizado impregnó la discusión del Seminario y le confirió una resonancia particular a las palabras de los conferencistas en la palestra. Estar allí fue, de cierta manera, habitar el centro del cosmos para recorrer el universo-chagra en sus diversas fases guiados por el relato de Abel Rodríguez Muinane, o en la contundente demostración de Pablo Taricuarima cuando las redes de simbólicas de su obra representan el aprendizaje paradójico de un precepto académico que proclama “menos es más, mientras que en mi cultura más es ser nosotros”, y que le lleva a afirmar “no soy indígena, soy kokama”.

Cada presentación fue una demostración de interdisciplinariedad desde la vida y la cultura de los pueblos, a la luz de las constelaciones socio-familiares de cada autor. Sus nichos de origen son el anverso de la fragmentación del mundo académico. Las redes del parentesco, soporte del pensamiento mitológico y de la construcción del sujeto, son el tejido y los lazos de transmisión de múltiples saberes que se poetizan en el proceso creativo de quienes han tenido el privilegio de recibir el soplo de la sabiduría y el conocimiento de la ayahuasca. Benjamín Jacanamijoy Tisoy, o Uaira-Uaira, Hijo del Viento, instala sus canoas en el Río Hudson y tapiza de chumbes las fachadas de las edificaciones de las metrópolis por donde ha transitado con su trabajo artístico, o participa de la invención de una etnia imaginaria, los Yaraoní –ala de mariposa-, con los cuales expresa su adhesión a la causa de los derechos humanos desde la perspectiva de los pueblos.

El trabajo cinematográfico-documental de Tuwe Huni Kuin, con el antropólogo Txai Terri Aquino, sobre los pueblos aislados de la región de Acre en la frontera Brasil-Perú muestra una de las acciones más impactantes en torno a las dinámicas de integración y resistencia frente a los acuerdos de manejo del territorio en zonas binacionales, en el propósito de la comprensión intercultural de las lógicas de asentamiento y las presiones e intercambios con los mestizos con los cuales comparten recursos del hábitat. No es una cámara ajena, extraña, la de Tuwe, ni una interacción fría la Terri el antropólogo. Es un recurso de investigación y comunicación que aproxima seres humanos y le narra al mundo no-indio la importancia de modificar esquemas y prejuicios sobre estas “islas de la historia” que se escapan a la lógica de la globalización.

Poco a poco la densidad de la obra y del pensamiento de los artistas va dibujando un horizonte multicultural sin fronteras en el que se fortalece la relevancia del proyecto Mira!. Es así que el arte textil de Delia Guarache, de la comunidad de El Alto en La Paz (Bolivia), ratifica una vivencia común a sus pares artistas, al afirmar con orgullo que su principal aprendizaje al pasar por la Escuela Municipal de Artes “ha sido valorar más lo que venía de antes”, su memoria cultural, la misma que transmite un profundo saber del proceso creativo de su pueblo en la técnica ancestral del tejido: “no cortar el hilo”, no interrumpir la historia ni el proceso.

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O Rember Yahuarcani, del Clan de la Garza Blanca, de la nación Huitoto, heredero consciente de la tragedia colectiva de su pueblo víctima de la explotación del caucho por la Casa Arana. La dispersión de antiguos linajes familiares viene siendo recompuesta a través de su trabajo en la ilustración de varios productos literarios bellamente editados en el Perú. La reinterpretación de los héroes mitológicos del universo Huitoto, centrados en lectores infantiles es una demostración de la permanencia dinámica de las culturas y los pueblos amazónicos. “Permanecemos transformándonos”, es la conclusión que resuena aún en el auditorio del Memorial Darcy Ribeiro.

O Carlos Sánchez, de la provincia de Sucumbíos en Ecuador, cuya lectura de las transformaciones del entorno selvático, en el marco del proyecto “¡Amazonía Vive!” lleva el detallado registro del mundo micro, el de un instante de la vida, a una dimensión de dramatismo incomparable al entender que el contexto de esa minuciosa tarea magnificada en un lienzo, es el de la destrucción irreversible causada por la explotación de hidrocarburos. Su trabajo es de una clara pedagogía militante en la defensa de los derechos de los pueblos a decidir sobre el destino de sus territorios.

Lo que viene

Mira! es un proceso vivo, alimentado por la participación entusiasta de su equipo coordinador y por la confianza de las instituciones que lo apoyan. Como queda en claro, la savia del asunto está en la obra y la presencia de los artistas, bajo el tejido de significados aquí expuestos. Cada día proporciona nuevas fuentes de aprendizaje para una gestión transcultural en la cual se va cimentando un modo óptimo de hacer las cosas en el escenario de la cooperación interinstitucional e internacional. Los tropiezos y dificultades se han ido sorteando gracias a que el proyecto cautiva, genera afecto y solidaridad, ingrediente sin el cual el cumplimiento de los rigurosos procedimientos formales, los protocolos diplomáticos y los dispendiosos trámites burocráticos, harían desistir a cualquiera en este empeño.

Una suerte de libreto básico se ha dibujado en las dos fases de circulación de Mira!: la existencia de un stock de obras que permanece hasta el final del ciclo en 2014, y al que se pueden adicionar algunas en cada país, durante cada estadía, es un activo fundamental del proyecto. La permanencia de la curaduría, y la coordinación general del proceso a cargo de la dirección del Centro Cultural de la Universidad Federal de Minas Gerais, garantiza la toma de decisiones coherente y una visión de conjunto que le da plena legitimidad y representatividad a la interlocución con cada uno de los actores y agentes nacionales e internacionales del proyecto. La existencia de un equipo estable de apoyo a la coordinación, conformado por expertos y especialistas garantiza una división de tareas que facilita el flujo de las decisiones y la actuación responsable y calificada de cada quien en los distintos momentos y componentes de este proceso. A medida que Mira! se desplaza a otros países la integración de una coordinación y equipos locales de expertos refuerza y asegura la continuidad sin sobresaltos del circuito.

En esta perspectiva surgen hechos nuevos que enriquecen la vida del proyecto y le hacen cada vez más atractivo, como lo demuestra el creciente número de solicitudes de ciudades y países que desean ser anfitriones de Mira! excediendo las posibilidades reales del cronograma y los compromisos establecidos al dar inicio formal en 2012. Que sea viable atender todas esas demandas es algo que acrecienta la complejidad de la gira y obliga a nuevos acuerdos con los artistas y el destino de sus obras. Por lo pronto, el fortalecimiento del esquema básico aquí expuesto es un propósito inmediato, en el cual tanto el incremento de la calidad como la ampliación de la cobertura e impacto públicos del Seminario, multiplicando los ciclos académicos durante cada estancia nacional, es algo que desde ya se considera benéfico y necesario, dada la multiplicidad de aristas y enfoques desde los cuales potenciar los contenidos de la exposición y el trabajo de los creadores. Como se dijo al comienzo, es la impronta de cada país y de las instituciones asociadas la que se hará visible en esta dimensión del circuito.

La diversificación de los canales de comunicación, registro y difusión de los componentes de Mira! es una estrategia de negociación interinstitucional a partir de una plantilla básica que incorpora redes sociales, un blog oficial y diversas piezas o formatos que se ponen al servicio del registro del acontecer cotidiano del proyecto y de la construcción de la memoria general del proceso. Todo este dispositivo se justifica en cumplimiento de objetivos de formación, educación y pedagogía, en el marco de una política cultural de acento universitario coherente con las necesidades de los pueblos indígenas y de los artistas. De hecho, Mira! es un espacio de expresión práctica de nuevos enfoques de política cultural a partir de los creadores y ese aprendizaje debe ser capitalizado como un beneficioso logro de beneficio colectivo.

Atraer socios y patrocinadores públicos y privados reconocidos en el ámbito del fomento y apoyo a la cultura es un reto de la organización de Mira! de modo que en cada país y al final del recorrido pueda asegurarse tanto la edición y la circulación de diversos productos derivados de los Seminarios y la exposición, como también la disposición de fondos suficientes para la sostenibilidad del equipo de producción y de los artistas y conferencistas invitados. Imaginar un sistema de becas, pasantías y residencias artísticas, es un imperativo que brota del carácter del proyecto y de las necesidades de los creadores y los públicos. Los episódicos y breves ensayos al respecto demuestran la pertinencia y conveniencia de esta estrategia, al lado de ciclos bien establecidos sobre cine, músicas, gastronomías, danzas, performances, literaturas, de modo que el sentido de la exposición y de los encuentros académicos se diversifique a través de cada una de estas líneas temáticas en torno al mundo indígena de los países participantes.

Una antropología de los pueblos amazónicos, centrada en el arte de estas sociedades, se impone como un reto intelectual y político que ofrezca respuestas válidas a las demandas de comprensión e interpretación de las dinámicas y transformaciones que afrontan en cada territorio. La valoración de estas manifestaciones y expresiones, en el contexto de una mirada integral de sus culturas, sus entornos y su producción simbólica, es una deuda intelectual que el mundo académico debe saldar con el refinado sistema de saberes y cosmovisiones que alimentan la producción de la cual Mira! es apenas una muestra. El futuro inmediato irá indicando qué es lo más pertinente en este camino de acompañamiento, pero el presente convoca desde ya a concentrarse en esta temática.

Contar con 127 obras de 54 creadores de cinco países y un número mayor de etnias es algo que jamás había ocurrido. Pero carecer de antecedentes no exime de hacer las cosas mejor que nunca. Es por ello que al tocar las puertas de la Organización del Tratado de Cooperación Amazónica, con sede en Brasilia, permite establecer una sintonía que realza el significado de este enorme esfuerzo para logar el respaldo de una instancia intergubernamental que facilite el tránsito entre países pero que además sea un importante soporte de un sueño que, como suele ocurrir en el mundo universitario, tomó forma antes de haber puesto los pies sobre la tierra. Ahora que Mira! despega traspasando fronteras, el mapa y la estructura del proceso aquí narrado e interpretado en perspectiva personal pueden correr el horizonte del proyecto cuando se nos dice, estando en Brasilia, que en el año 2015 se llevarán a cabo en Brasil los Juegos Indígenas Mundiales. Obviamente, no es nada descabellado pensar que este sería el momento para imaginar una nueva edición de Mira! que dialogue con ese importante evento. La espiral de la anaconda, metáfora del río-madre, indicaría que ese es el camino.  

Puerto Arturo, Coveñas, 10 de enero de 2014.

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Arte e artistas da Amazônia

No mundo das novidades instantâneas, das descrenças, das indiferenças, já não basta a dança de algumas verdades perdidas dos olhos em livros bem guardadas. Na mesma medida, não basta o saber ancestral dos povos originários, desaparacendo a cada instante nas floretas ameaçadas. Nesse ínterim, a arte produzida pelos ameríndios pode ser uma ponte entre o sentido de verdade estabelecido e outras possibilidades apresentadas nos fazeres gráficos desses povos por meio de seus indivíduos artistas.

É de fato um contrasenso para o sistema estabelecido, pois supunha-se que os indígenas entrassem na massa homogênea da invisibilidade, que se tornassem parte do todo e, naturalmente, deixassem de ser “pagãos”, “selvagens” e incapacitados para a nova ordem. Para muitos indígenas, e outros interessados neste discurso, esta máxima pode parecer verdade de tanto que essa proposta aparece fora de um contexto de reflexão crítica. 

Hoje, continuamos ouvindo com muita frequência que os indígenas estão na cidade, que deixaram a aldeia, que perderam sua essência, portanto, não são mais essenciais. Mas será que não foi a cidade que suplantou as aldeias? No meu país, em muitos casos, é isso o que acontece; a total inversão dos fatos. Asseguro, porém, que, no íntimo, o indígena mantem-se fiel a sua linhagem histórica, espiritual e social; a tudo que o torna como tal, qual seja, viver o mundo e percebê-lo girando em outra órbita.

Em todo caso, por razões que eles bem conhecem, e a história pode contar, os indígenas resistiram, resistem e, mesmo avaliando que o tempo nunca será o mesmo, resistirão. Aos seus modos, insistem em dizer: podemos continuar existindo; há uma maneira de fazê-lo e essa maneira independe do querer do outro, dos homens que acreditam orquestrar a vida na terra.

O artista indígena é, deve ser, o agente catalizador da cultura de seu povo e, com maestria, disseminá-la amplamente no todo, assegurando seus espaços no mosaico da diversidade, da transculturalidade. Esse indivíduo deve aglutinar, em seu fazer artístico, todo os saberes, suas várias habilidades distribuídas, que ancoram seu povo no tempo atual, considerando diretamente o passado como a referência máxima e o futuro como o novo a se conquistar.

Nesse sentido, a arte indígena deve ser a manifestação individual do saber coletivo, considerando a interação entre o indíviduo e o todo. A obra sendo uma representação de poder, colocando os espectadores diante de um mundo desconhecido, mas possível. E também de um mundo conhecido, que se apresenta distante, quase incompreensível, pois, alheio a quem precisa.

A nossa tarefa, pesquisadores, cientistas e artistas, é fazer o diálogo acontecer, abertamente, considerando que o futuro dos homens, em algum dado momento, será confrontado com as leis da natureza, pois este evento é comum entre as culturas e se acelera a cada dia.

Do que conheço melhor, posso arriscar que há um sentido mais amplo para a arte produzida por indígenas, algo elementar que reitero sempre. Tal sentido só estará completo na medida que se fizer polivalente. Das muitas expectativas atribuídas ao fazer artístico do indígena, está o papel fundamental de situá-lo no todo, colocando-o como peça essencial, distribuída, mas identificável no mosaico da diversidade social e cultural, tendo um propósito específico; mas qual?

Talvez, compreender o futuro como necessidade coletiva seja o fator determinante para que os homens do presente se enxerguem como co-responsáveis por construí-lo. Nessa demanda, está a compreensão do seu papel individual no todo. Indígenas e todas as outras parcelas sociais devem dialogar nessa perspectativa.

É cruel! Ao primeiro olhar, é cruel, a sedução do novo, na perspectiva do indígena. E muito do que se perdeu foi perdido no fascínio, no choque catastrófico do contato abrupto. Não lhes sobrou tempo para mesclar, absorver ou trocar. Foi drástico, frio e sem retorno. Isso não é mais concebível na era da comunicação, em tempos de comparações de verdades, de conflitos e convergências de interesses.

Para começar a compreensão sobre a proposta da arte indígena e sua imersão no contexto contemporâneo, é preciso, antes de tudo, considerar alguns pressupostos básicos. Minhas considerações são um apanhado de tudo o que um índio makuxi de 34 pode viver, conhecer e, principalmente, pelo que desconhe até esse momento. Com meu traço, acredito imprimir um sentimento coletivo, partindo da minha relação com a vida e os sistemas de valores aos quais estamos sujeitos, nesse caso a globalização e seus reflexos imediatos e tardios.

Assim, transformo meus discursos em ações práticas por meio dos trabalhos artísticos e de comunicação, colaborando no Curso Run To The Forest, na Exposição Cattle in the Amazon e no Painel The Tree of All Knowledges.

Para alguns povos indígenas, sentir estes reflexos pode variar na medida que o entendem e o assimilam. Para outros, é tão drástico, que não encontram tempo para percebê-los, pois, tamanha a diferença entre suas formas de viver o tempo e perceber o espaço. Tudo lhes chega em tormento, sem opção de escolha.

A arte e o artista são complementos incompletos. Só se personificam com o todo, o povo e seu saber. E agora, também, com as demandas externas, antes distantes e visionárias, hoje, reais, trazendo agonia e pavor ao redor da aldeia, nos campos de passeio e caça, em tudo a sua volta.

Por que insistir em defender a manutenção da diversidade cultural, contemplando nesta os ameríndios? Por que insistir em defender o tempo destes povos para que façam suas próprias escolhas? Por que defender modelos alternativos de economia e produção? Talvez trate-se do maior de todos os desafios, a manutenção dos homens como agentes modificadores de seus espaços. Isso é razoável no sentido evolutivo. A forma como está sendo feito, porém, isso sim é retrógrado e catastrófico, pois o tempo da natureza, amplamente defendido pelos indígenas, não pode mudar aos nossos, tão largamente distantes. 

Jaider Esbell – es.b@hotmail é Makuxi, escreveu este artigo dos Estados Unidos onde está professor/artista convidado no Pitzer College, em Claremont. CA. Image

Mostra de artes visuais contemporâneas dos povos indígenas entra em cartaz em Brasília em 28 de novembro

Formas, cores e ideias dos povos originários da América do Sul compõem a exposição ¡Mira! – Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenas, que entrará em cartaz nas galerias da Casa da Cultura da América Latina (CAL) da Universidade de Brasília (UnB), a partir do dia 28 de novembro.  A mostra reúne pela primeira vez no país pinturas, desenhos, cerâmicas, esculturas, vídeos e fotografias de artistas indígenas da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru.

Idealizada e lançada no Centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, em junho deste ano, a exposição tem a proposta de trazer ao público as novas estéticas dos povos ameríndios, em que os autores produzem arte aliando saber tradicional às modernas tecnologias. 

“As artes visuais que alguns indígenas estão fazendo, expondo e vendendo, entram em nosso mercado, na cidade grande, como objetos e signos de outras realidades”, explica Maria Inês de Almeida, curadora e coordenadora da exposição. “O que difere suas peças dos objetos e signos tradicionais, frutos da cultura oral, são a tensão e a perturbação, algo que um indivíduo é capaz de expressar quando vê o mundo de longe”, completa.

“A produção simbólica do povo Aymara traz consigo uma enorme carga de conhecimento, de saberes, de tradições, que foram sendo transmitidos através de distintas linguagens artísticas e distintos suportes. Meu trabalho é  retransmissão do conhecimento utilizando como suporte a linguagem visual como a pintura”, explica Dennys Huanca, artista do povo indígena Aymara, que vive nos Andes da Bolívia.

O projeto partiu do Núcleo de Pesquisas Literaterras da UFMG, dedicado à literatura feita por autores indígenas, e é resultado de uma pesquisa realizada por uma equipe formada por antropólogos, comunicadores e indigenistas, que percorreu milhares de quilômetros em busca da arte indígena latino-americana. Foram levantadas mais de 300 obras. Depois, um conselho curador, composto por especialistas em artes visuais, escolheu mais de 100 obras de artistas de diferentes etnias.

Em Belo Horizonte, a exposição foi dividida em três núcleos: Cosmovisões , Paisagens e História e violência. “Indígenas vivendo de arte é novidade até nas aldeias”, observa Maria Inês. “Se na Semana de Arte Moderna de 1922 vimos artistas brancos antropofagizando a arte indígena, agora criadores indígenas fazem o mesmo com estéticas de outras culturas”, explica.

Na busca pelo diálogo intercultural, e através de múltiplas linguagens, a exposição promove o intercâmbio entre as novas experiências artísticas desenvolvidas pelos povos indígenas da América do Sul. “A Mira é um encontro que enriquece a minha experiência artística como também me faz conhecer e aprender sobre as outras culturas”, conta Brus Rubio, artista da etnia Bora-Huitoto do Peru.

Entre os dias 12 e 13 de dezembro, acontecerá o Seminário Internacional Universidade, Arte, Cultura e Desenvolvimento, em que artistas indígenas da exposição e pesquisadores irão debater  sobre a relação entre as artes indígena e ocidental, entre outros temas. “Qual é a arte que estamos fazendo? É contemporânea ou não? Estamos fazendo uma arte nova? Nesse encontro, dialogamos sobre essas questões”, explica o indígena peruano Rubio.

O evento é uma realização do Decanato de Extensão, a Casa da Cultura da América Latina e o Centro Cultural da UFMG, com o apoio da Fundação Darcy Ribeiro e Fiocruz, patrocinada pela Fundação Palmares. A mostra ficará em cartaz em Brasília até 02 de fevereiro de 2014. É a oportunidade do público conhecer o pensamento e a perspectiva indígena em meio às artes visuais contemporâneas.

Serviço

¡Mira! – Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenas

Abertura: dia 28 de novembro (quinta-feira), às 19h

Local: Galerias Acervo, CAL e de Bolso da CAL (SCS Quadra 4, Edifício Anápolis)

Telefone: (61) 3321.5811

Visitação: até 2 de fevereiro de 2014, todos os dias das 9h às 18h

Entrada franca

Classificação livre

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Vídeo sobre a exposição ¡Mira! em Belo Horizonte

Vídeo

O Centro Cultural UFMG produziu a exposição ¡Mira! – Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenas, uma significativa mostra de arte contemporânea que apresentará ao público muitas imagens e técnicas através das quais as sociedades indígenas expressam suas vivências.
Na pesquisa realizada para elaboração da exposição Mira! foram catalogadas mais de 300 obras, sendo 30 etnias e 75 artistas de cinco países da América do Sul: Brasil, Colômbia, Bolívia, Peru e Equador.