¡MIRA! Artes visuais contemporâneas dos povos indígenas – o contexto da obra, do artista e a ocasião.

Por: Jaider Esbell – Artista Macuxi.

Jaider Formulario 01 - KANAIMÉ

Kanaimé. Jaider Esbell, acrílica sobre tela. 2011.

Em geral, somos levados a entender a arte como um conjunto de informações e emoções intrínsecas ao objeto contemplado, traduzidos em múltiplos valores. Tais objetos elevam-se à condição de obra de arte quando são percebidos, assimilados e digeridos, no sentido mais amplo do termo, por um grupo de pessoas pré-dispostas a aceitar a sugestão de um sistema que envolve profissionais, contexto político-social e mercado. Nesse sentido, a arte pode parecer só mais um produto, fruto da criação humana, na busca de preencher espaços criados pela relação de oferta e consumo, na busca incessante por novidades ou simplesmente pela obsessão de criar algo “novo e importante” no contexto da “evolução humana”.
Isso é uma questão; uma perspectiva do contexto. Agora, para além de buscar re-significar o termo-referência arte, convém aceitar que, ao reunir uma coleção diversificada de obras, ¡Mira! nos envolve num desafio complexo e instigante. Instigante porque a arte indígena contemporânea está inteiramente relacionada com a sensibilidade do artista em produzir uma ponte de comunicação para o inatingível, em nível da imaterialidade referenciada pelos espíritos dos ancestrais. Perceber o que não se conhece, sentir esse espírito no áudio, no visual ou em outros meios é um dos desafios mais instigantes. Outro desafio vem do lado de fora da galeria, do lado de fora do contexto, das ordens não naturais das coisas, do sistema oposto ao propósito da vida e da magia, da negação a coexistência. Exatamente, falo de 25 povos originários da América do Sul, neste contexto representado por 54 artistas e suas obras-trajetórias em contraponto com o senso comum de que existir pressupõe seguir uma única via ditada por outros, a hegemonia e o unilateralismo.
Passear no jardim da criatividade, nos recantos sagrados ainda mantidos em busca de arte indígena, não é exatamente um exercício de colecionador na busca de eleger tão somente as formas e cores que mais lhe enchem os olhos. Não, não é! O que a Coleção ¡MIRA! reúne são pontos de interconexão, de uma ligação fortemente estabelecida entre os homens e os seres fantásticos que habitam estas terras desde que não se tem memória. Nesse exato ponto, se percebe o propósito maior da arte e do artista indígena como comunicador entre dois mundos. Sem medo do exagero, é fácil acreditar na atuação sobrenatural dos guias na condução dos curadores. Como selecionar aleatoriamente o que não é aleatório, casual ou fruto da individualidade?
O ponto comum que as obras de arte reunidas na ¡MIRA! têm são: o valor incalculável do saber ancestral, a energia espiritual, a força da resistência e a magia pela busca de perpetuação em um tempo visivelmente predisposto a ignorá-los com a ideia da homogeneização inevitável. Então, quando se reúnem obras de artes de diferentes povos originários, imagina-se, em uma outra escala, quão articulada está a teia da ancestralidade e nós, artistas e articuladores, somos a parte visível, palpável, e cabe a nós costurar com vigor essa teia para mirar a perpetuação dos saberes.
Para começar a saborear o que de melhor os artistas indígenas têm para oferecer, é preciso, antes de tudo, entender que cada traço, ponto ou cor foi concebido em um estado de energia único. Que essa energia tem origem em um passado remoto, de onde tudo se origina, estaciona momentaneamente nos dias atuais, guiando os sentidos do artista que segue mirando fixamente para o futuro; o futuro comum que todos esperam. Essa é uma via de entendimento, mas, nessa trajetória, muitos detalhes estão diluídos e para esses detalhes estarem ao nível da percepção humana, cabe a nós espectadores o exercício doloroso da espera e da busca. Só assim, com o tempo próprio, o apropriado será sentido na plenitude.