Arte e artistas da Amazônia

No mundo das novidades instantâneas, das descrenças, das indiferenças, já não basta a dança de algumas verdades perdidas dos olhos em livros bem guardadas. Na mesma medida, não basta o saber ancestral dos povos originários, desaparacendo a cada instante nas floretas ameaçadas. Nesse ínterim, a arte produzida pelos ameríndios pode ser uma ponte entre o sentido de verdade estabelecido e outras possibilidades apresentadas nos fazeres gráficos desses povos por meio de seus indivíduos artistas.

É de fato um contrasenso para o sistema estabelecido, pois supunha-se que os indígenas entrassem na massa homogênea da invisibilidade, que se tornassem parte do todo e, naturalmente, deixassem de ser “pagãos”, “selvagens” e incapacitados para a nova ordem. Para muitos indígenas, e outros interessados neste discurso, esta máxima pode parecer verdade de tanto que essa proposta aparece fora de um contexto de reflexão crítica. 

Hoje, continuamos ouvindo com muita frequência que os indígenas estão na cidade, que deixaram a aldeia, que perderam sua essência, portanto, não são mais essenciais. Mas será que não foi a cidade que suplantou as aldeias? No meu país, em muitos casos, é isso o que acontece; a total inversão dos fatos. Asseguro, porém, que, no íntimo, o indígena mantem-se fiel a sua linhagem histórica, espiritual e social; a tudo que o torna como tal, qual seja, viver o mundo e percebê-lo girando em outra órbita.

Em todo caso, por razões que eles bem conhecem, e a história pode contar, os indígenas resistiram, resistem e, mesmo avaliando que o tempo nunca será o mesmo, resistirão. Aos seus modos, insistem em dizer: podemos continuar existindo; há uma maneira de fazê-lo e essa maneira independe do querer do outro, dos homens que acreditam orquestrar a vida na terra.

O artista indígena é, deve ser, o agente catalizador da cultura de seu povo e, com maestria, disseminá-la amplamente no todo, assegurando seus espaços no mosaico da diversidade, da transculturalidade. Esse indivíduo deve aglutinar, em seu fazer artístico, todo os saberes, suas várias habilidades distribuídas, que ancoram seu povo no tempo atual, considerando diretamente o passado como a referência máxima e o futuro como o novo a se conquistar.

Nesse sentido, a arte indígena deve ser a manifestação individual do saber coletivo, considerando a interação entre o indíviduo e o todo. A obra sendo uma representação de poder, colocando os espectadores diante de um mundo desconhecido, mas possível. E também de um mundo conhecido, que se apresenta distante, quase incompreensível, pois, alheio a quem precisa.

A nossa tarefa, pesquisadores, cientistas e artistas, é fazer o diálogo acontecer, abertamente, considerando que o futuro dos homens, em algum dado momento, será confrontado com as leis da natureza, pois este evento é comum entre as culturas e se acelera a cada dia.

Do que conheço melhor, posso arriscar que há um sentido mais amplo para a arte produzida por indígenas, algo elementar que reitero sempre. Tal sentido só estará completo na medida que se fizer polivalente. Das muitas expectativas atribuídas ao fazer artístico do indígena, está o papel fundamental de situá-lo no todo, colocando-o como peça essencial, distribuída, mas identificável no mosaico da diversidade social e cultural, tendo um propósito específico; mas qual?

Talvez, compreender o futuro como necessidade coletiva seja o fator determinante para que os homens do presente se enxerguem como co-responsáveis por construí-lo. Nessa demanda, está a compreensão do seu papel individual no todo. Indígenas e todas as outras parcelas sociais devem dialogar nessa perspectativa.

É cruel! Ao primeiro olhar, é cruel, a sedução do novo, na perspectiva do indígena. E muito do que se perdeu foi perdido no fascínio, no choque catastrófico do contato abrupto. Não lhes sobrou tempo para mesclar, absorver ou trocar. Foi drástico, frio e sem retorno. Isso não é mais concebível na era da comunicação, em tempos de comparações de verdades, de conflitos e convergências de interesses.

Para começar a compreensão sobre a proposta da arte indígena e sua imersão no contexto contemporâneo, é preciso, antes de tudo, considerar alguns pressupostos básicos. Minhas considerações são um apanhado de tudo o que um índio makuxi de 34 pode viver, conhecer e, principalmente, pelo que desconhe até esse momento. Com meu traço, acredito imprimir um sentimento coletivo, partindo da minha relação com a vida e os sistemas de valores aos quais estamos sujeitos, nesse caso a globalização e seus reflexos imediatos e tardios.

Assim, transformo meus discursos em ações práticas por meio dos trabalhos artísticos e de comunicação, colaborando no Curso Run To The Forest, na Exposição Cattle in the Amazon e no Painel The Tree of All Knowledges.

Para alguns povos indígenas, sentir estes reflexos pode variar na medida que o entendem e o assimilam. Para outros, é tão drástico, que não encontram tempo para percebê-los, pois, tamanha a diferença entre suas formas de viver o tempo e perceber o espaço. Tudo lhes chega em tormento, sem opção de escolha.

A arte e o artista são complementos incompletos. Só se personificam com o todo, o povo e seu saber. E agora, também, com as demandas externas, antes distantes e visionárias, hoje, reais, trazendo agonia e pavor ao redor da aldeia, nos campos de passeio e caça, em tudo a sua volta.

Por que insistir em defender a manutenção da diversidade cultural, contemplando nesta os ameríndios? Por que insistir em defender o tempo destes povos para que façam suas próprias escolhas? Por que defender modelos alternativos de economia e produção? Talvez trate-se do maior de todos os desafios, a manutenção dos homens como agentes modificadores de seus espaços. Isso é razoável no sentido evolutivo. A forma como está sendo feito, porém, isso sim é retrógrado e catastrófico, pois o tempo da natureza, amplamente defendido pelos indígenas, não pode mudar aos nossos, tão largamente distantes. 

Jaider Esbell – es.b@hotmail é Makuxi, escreveu este artigo dos Estados Unidos onde está professor/artista convidado no Pitzer College, em Claremont. CA. Image