Miração

Maria Inês de Almeida (*)

Todos os seres deviam ser os seres maravilhosos, porque na Terra estamos em maravilhas. Como podemos nos guiar por algo tão longínquo? Talvez pela graça da poesia.

Católica, uma vez sonhei com Nossa Senhora das Graças. Ela apareceu no alto de uma serra, em Minas Gerais, e em volta dela rodavam pássaros brancos que nada mais eram que homens vestidos de branco (marujos?) a lhe prestarem homenagem. O que aquela imagem me transmitia? Penso nela como um espaço em que se reúne a comunidade – haveria outro nome para a experiência amorosa? Cada um sozinho com sua devoção, sua dança, seu canto, sua escrita, seu desenho e sua alegria, no breve encontro em torno de uma imagem, de um desejo de só seguir.

Treze anos depois, em maio de 2013, pela graça de um novo amor, no lago Yarinacocha, selva peruana, vi de novo a imagem de Nossa Senhora, só que, desta vez, eu estava acordada. Ela apareceu em um barco cercado de outros pequenos barcos, levada em cortejo por devotos, numa festa em homenagem a Nossa Senhora de Fátima, padroeira de algum pueblo indígena das margens daquele lago. Por alguns minutos, nossa canoa seguiu aquela procissão e eu senti uma alegria inesquecível.

Eu estava em missão de me encontrar com alguns artistas da região e recolher suas obras para a exposição MIRA, que se abriria no Centro Cultural UFMG dali a alguns dias. E o que a imagem da Virgem Maria, pela segunda vez, me dizia?

Hoje, pensando bem, depois da belíssima reunião dos artistas ameríndios em torno de suas obras, em Belo Horizonte, no mês de junho, acho que entendo mais um pouco. A rainha da floresta, espírito feminino, em que o indiferenciado gesta as diferenças, guiaria nosso trabalho conjunto para a criação de uma nova comunidade textual – um mundo de signos entre os mundos, de modo que, em imaginação, formaríamos uma comunidade. Dali em diante, nos leríamos uns aos outros, com nossas línguas e linguagens diferentes e irredutíveis, porque temos em comum um jardim de pensamento.

Os rituais são pequenas maravilhas preparadas pelos homens para receberem a graça. A única exigência é que eles se despossuam até alcançarem o alto da serra ou a profundez do lago. Lá, encontraremos a tela, o papel, qualquer superfície que receba o traço, a cor, a forma – enfim, o texto para os que buscam a experiência. Essa experiência, viveremos toda vez que finalmente desejarmos o mundo terreno.

(*) Curadora da Exposição MIRA – Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenas

Etnografia, Arte e Imagem

No post desta semana é um prazer apresentar uma recente publicação que traz valiosos aportes à discussão sobre arte indígena contemporânea. Trata-se do último número de Enfoques, Revista dos Alunos de Pós-Graduação em Antropologia e Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. O título do presente volume, “Etnografia, Arte e Imagem”, reflete os principais pontos de convergência entre textos que surgem de experiências etnográficas variadas e visam problematizar o que pode ser entendido por arte, estética e imagem partindo de categorias nativas. Seja de povos indígenas como os Kaxinawa e Canela do Brasil, ou os Kuna de Panamá-Colômbia, ao deslocamento destas categorias quando inseridas no contexto de coleções e exposições em Museus. A própria crítica da arte, e a discussão de forma ampla sobre a imagem na antropologia, incluindo a fotografia, internet, cinema e TV, também fazem parte do rico material que o conjunto de textos nos traz.

Este número especial é organizado por alunos de doutorado vinculados ao Núcleo de Imagem e Pesquisa Etnológica (NAIPE) do PPGSA/UFRJ, que é coordenado pela Professora Els Lagrou, quem também participou do Seminário ¡Mira! no Centro Cultural  UFMG, na mesa inicial, sobre Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenas. Vale a pena destacar a opção por um projeto gráfico muito vivo e o formato para a leitura na internet, fazendo uma abertura para novas formas de circulação e ampliação da rede de debate.

É por isso que desde o blog !Mira! damos as boas-vindas a esta publicação e a construção desta rede virtual de encontro em torno de uma arte contemporânea mais plural e vital. Boa leitura!

Edgar Bolívar-Urueta.

Leia a revista online: http://issuu.com/revistaenfoquesufrj/docs/vol12_1

Disponível também em PDF

MIRA! “El querer es un poder”

Sobre el Encuentro de Arte Indígena Contemporáneo, Organizado por el Centro Cultural de la UFMG, Belo Horizonte Brasil, 14 al 21 de junio de 2013

Por: Benjamín Jacanamijoy Tisoy / Artista Inga Por: Benjamín Jacanamijoy Tisoy / Artista Inga

Quiero comenzar este fragmento de mi “propia historia” recordando a mi padre Taita Antonio Jacanamijoy Rosero, quien durante 70 años se dedicó a ejercer el “arte de curar” y enseñar el arte de “pensar bonito” o “bien vivir”. Taita Antonio se inició en estas artes a partir del “aliento de corazón” recibido de varios “Sinchis Yachas: Sabios Duros” o “Taitas Mayores” través del “Yajesito” a la edad de 15 años.

Llega a mi pensamiento la imagen de Taita Antonio, dirigiéndose a los asistentes de uno de sus rituales para expresar su forma de compartir y transmitir conocimientos, “El querer es un poder” les dice, algunos de los presentes le corrigen; Taita “querer es poder” -como dice el dicho-, sin embargo Taita Antonio insiste “El querer es un poder”.

En ese momento las personas presentes en el ritual, estaban seguras que hacía referencia a “querer es poder” sin embargo tiempo después me explicó: 

El conocimiento en un primer momento llega al “vientre o estómago” considerado como un “espació espiritual” donde se guardan los secretos más íntimos del ser humano, posteriormente pasa al corazón, luego al cerebro y finalmente sale por la boca como palabra de “poder y conocimiento” que guía a una persona, una familia, varias familias o todo un pueblo, así, transmitiendo y compartiendo “conocimientos” con querer, aprecio o amor, serán más fácilmente comprendidos por quién o quienes deseen tener entendimiento sobre un determinado tema”.

Ahora bien, ¿porque? MIRA me pareció un espacio dedicado a “El querer es un poder”, profundos conocimientos sobre diversas culturas de pueblos indígenas y sus territorios se pudo transmitir y compartir durante los días del encuentro, no hubo diferenciación entre las consideraciones de artistas empíricos, autodidactas y académicos, durante los días que duró el encuentro sentí que se creó un ámbito de cordialidad y de amistad nunca antes observado por mí en algún tipo de encuentros a los cuales he asistido.

Debo decir que compartir al mismo tiempo con artistas indígenas sabedores del arte de curar, con sus cánticos y oraciones, artistas indígenas mujeres y hombres autodidactas en las técnicas plásticas pero con grandes conocimientos sobre la propia historia de un determinado territorio, artistas indígenas mujeres y hombres universitarios o egresados de alguna institución académica, y sentirse acompañado de corazón por los organizadores y visitantes del encuentro MIRA, mujeres artistas y no artistas, académicas y no académicas, hombres artistas y no artistas, académicos y no académicos y todas las niñas y niños que estuvieron presentes en el evento, fue una ocasión única que siempre recordaré, en una especie de un encuentro de afectuosos “alientos de corazón” estuvimos reunidos durante varios días pensando en la forma de continuar engrandeciendo el arte de “vivir bien” y “pensar bonito caminando con el corazón contento”. Al final del evento todos los asistentes teníamos la convicción de estar unidos acerca de la “idea” de conformar a partir del encuentro MIRA un movimiento de carácter espiritual y artístico que sobrepasen los límites que nos imponen los movimientos de última generación. Anhelo que en el transcurso de las próximas exposiciones de MIRA podamos concretarlo.

Sobre el aliento de corazón Taita Antonio decía lo siguiente: “Quedar “samai” representa  quedar con el “aliento del otro en el corazón”, ya sea este un ser humano, animal, vegetal o mineral, haberlo entendido como poseedor de fuerza y vida, quedar “samaicosca” es lo contrario, no haber entendido la fuerza del “otro” quedar asustado”. Quienes asistimos al encuentro MIRA creo que aún armonizamos en “samai”, trabajando en el arte del “pensar bonito”.

Sobre mi participación en el evento además de exponer dos de mis obras estaba encaminada a presentar a través de una conversación el proceso de creación de mis obras pictóricas, intervenciones escultóricas y fotográficas, dentro de la temática “arte como transformación” en el marco del seminario MIRA, me sentí muy complacido de compartir el alcance que ha tenido para mí desarrollar el arte de pintar y contar la propia historia; En este sentido, mientras la exposición MIRA se prepara a seguir en su travesía por Perú, Bolivia, Ecuador y Colombia, me propuse realizar esta breve reflexión sobre mi presencia en este trascendental acontecimiento dentro de la “Propia historia del arte” de los Pueblos Indígenas de Latinoamérica.

Benjamín Jacanamijoy Tisoy.

Artista Inga / Belo Horizonte / Junio de 2013.

"Chumbe en Belo Horizonte"  Benjamín Jacanamijoy Fotografía

“Chumbe en Belo Horizonte”
Benjamín Jacanamijoy
Fotografía. 2013

 

PROJETO COLETIVO ITINERANTE ARTE E VIVÊNCIA – A ÁRVORE DE TODOS OS SABERES

Campanha coletiva para levar artistas indígenas a expor na ONU

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A expectativa de levar ao conhecimento mundial a existência de um complexo e próspero processo artístico criativo e em criação, portanto inovador, entre os indígenas, é um dos principais motivos que sustentam a argumentação do projeto coletivo ARTE E VIVÊNCIA – A ÁRVORE DE TODOS OS SABERES.

A novidade pode não estar na arte, se precede falta de argumentos, mas está, sem dúvida, nos indígenas, na cosmovisão peculiar que lhe confere o destaque a esta mesma arte, por eles produzida. Dessa forma a arte para o indígena é o saber e o saber para o indígena é de todos, é do povo de onde ele se origina.

Não alheios a rótulos e a comparações, vistos sob o ângulo da natureza comum, talvez o sistema não permita aos artistas indígenas falarem por si mesmos sobre suas produções, dissociando-os do tempo necessário para fluir a transcendência que as obras de arte por eles materializadas trazem da aparente inconsciência, o que logo chamar-se-iam abstração.

A abstração neste caso pode ser o óbvio, em um cruzamento de valores tão díspares. Há uma base para sustentar novos argumentos? Sim, há o homem originário, o ser material que registra as expressões inanimadas, aparentemente inexistentes, sem plataformas, o fluir da existência humana na coexistência com os demais seres, sem sobreposição ou supravalorização deste primeiro aos outros onde é terreno até o que não é terra, o inconcebível para o alheio, o externo.

Embora a arte como linguagem esteja à dianteira das manifestações culturais, políticas e ideológicas dos mais distintos povos, em lugares aparentemente sem conexão possível, desde tempos imemoriais, é comum o fazer artístico. Contudo, a arte como conceito, e daí delimitam-se categorizações, usos e aplicações, entre os povos ameríndios é sem qualquer dúvida, um fenômeno, nestes termos, recente.

Há uma novidade a mais, no universo, já bastante plural das artes, a arte indígena, ou a arte produzida por indivíduos de comunidades originárias. Culturas originárias na ocupação de espaços físicos geográficos e ocupação de sentidos próprios para necessidades existenciais, ou a ligação estabelecida, aprimorada e mantida com o plano espiritual.

O protagonismo é do indígena, frente a construção desse novo cenário, ou a tomada de consciência destes indígenas artistas em relação aos seus posicionamentos ante as possibilidades que o seguimento artístico, em franco diálogo com o todo, pode proporcionar, carregando um conjunto de respostas para perguntas ainda não pronunciadas.

A maneira mais original de fazer arte indígena é fazendo com a vivência. O indígena, na prática de suas habilidades, aprimoradas a cada geração, irrompe na arte contemporânea como se este se lançasse à uma floresta aparentemente desconhecida, portanto, talvez perigosa.

Para além das complexidades interativas ou interpretativas entre arte e artista, do ponto do espectro ocidental, arte e índio no romper desse horizonte, podem ser produção e produtor, uma relação que se forma na completude de um para com o outro circundado no todo. A diferença está essencialmente no reconhecer-se como tal, um dialogador entre dois tempos, estando cercado de possibilidades narráveis e ilustráveis dos planos espirituais compartilháveis e acessíveis, na linha do tempo tanto quanto se buscar.

As angústias da incompreensão são amainadas pelo embalo do artista indígena na teia da ancestralidade e o calor da vivência produz a energia que o humano precisa para despertar habilidades a eles conferidas e o deixa em transe diante da descoberta que a arte entre os índios nada mais é que uma forma de diálogo iniciado em tempos remotos, mas fielmente vivo na memória coletiva tem como instrumento o individuo artista. Este diálogo lança-se corpóreo na arte indígena, num plano ainda mais minado de armadilhas, feições e artimanhas que chegam com a nova economia e o novo sentido de valor e tempo, onde novamente o indígena fascina com a habilidade de manter-se nutrido.

Jaider Esbell Makuxi – RR/Brasil

es.b@hotmail.com

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